As Cervejas Artesanais e o Renascimento Cervejeiro


10516748_1564145960486225_6410346161109818929_nTenho estado um pouco afastado do blog, contabilizei mais de 1 ano de ausência, um período inédito desde aquele primeiro artigo em Julho de 2008. Talvez a causa inicial desse afastamento tenha sido o projeto do Portal Verde Lado, que apesar de já ter recebido o meu blog, ainda não foi concluído.

Nesse tempo, como na vida de todos, muitas águas rolaram e outros projetos surgiram; alguns concluídos, outros não. Mas o que de fato me transformou nesse período foi a descoberta da minha paixão pelo universo da cerveja. Não, não estou me referindo àquela latinha vermelha, nem à latinha azul dos pinguins ou muito menos àquela de conotações redondas, refiro-me as Cervejas Artesanais ou Especiais, como melhor convir.

Como numa paixão fulminante, em pouco mais de um ano foram mais de 600 rótulos degustados, 7 livros devorados, um curso profissionalizante de Sommelier de Cerveja no Science of Beer, uma loja virtual montada e algumas degustações organizadas.

Claro que qualquer objeto ou mesmo abstração são dignos de paixões, umas mais reveláveis outras nem tanto. E neste exato momento, alguns podem estar se perguntando “Por que alguém se apaixonaria por cerveja?”, enquanto outros diriam “Ué, cerveja é cerveja, quem não gosta?”. Bom, as duas perguntas tem algo em comum: o desconhecimento sobre o universo das cervejas.

Muitos já descobriram, outros estão em vias de, porém a maior parte da população ainda não ouviu falar do que eu prefiro chamar de “Renascimento Cervejeiro” (os termos mais comuns são Revolução Cervejeira ou Movimento Cervejeiro). Trata-se da redescoberta da cerveja não como produto industrial, mas como produto da criatividade humana, como um produto artesanal.

Imagine uma feira de rua, onde os feirantes que vendessem frutas só tivessem laranjas, mais especificamente, laranjas limas. Imagine agora que a única variação destas frutas seria sua fazenda de origem. Nada de laranja seleta, nada de laranja pêra, nem muito menos maçã, uva ou banana. Estranho? Sim, seria muito estranho! Afinal várias frutas fazem parte de nosso imaginário popular.

Há alguns anos, quando entrávamos num supermercado, tínhamos apenas 4 ou 5 marcas oferecendo o mesmo estilo de cerveja: “Pilsen”. Achávamos estranho? Não! E por quê? A diferença é que quando a cerveja foi introduzida em nossa cultura, na primeira metade do século XX, o processo de padronização industrial já tinha atingido o setor e tivemos pouquíssimo contato com outros estilos de cerveja.evolucao beer

Algumas partes do mundo nunca deixaram de produzir cervejas artesanais, principalmente no Velho Mundo, como na Alemanha, na Bélgica ou na República Tcheca, onde dezenas e dezenas de estilos continuaram sendo produzidos a despeito da indústria.

Os ingleses tinham na cerveja inglesa e em seus brewpubs parte importante de sua culturacamra-logo-big. Afinal, era nesses pubs, bebendo cerveja, que os amigos costumavam se reunir. O processo de padronização no início da década de 70 tomou contornos dramáticos, quando alguns consumidores se uniram e decidiram enfrentar o sistema, criaram o CAMRA (Campaign for Real Ale ou Campanha pela Cerveja de Verdade) que reúne atualmente, mais de 150 mil membros.

mjacksonEssa campanha foi responsável pela permanência de diversos estilos de cerveja e influenciou fortemente os Estados Unidos. Ainda na década de 70, o jornalista norte-americano Michael Jackson impressionado com suas descobertas cervejeiras, além de várias outras iniciativas, reuniu e sistematizou pela primeira vez o conhecimento sobre diversas cervejas do mundo num livro intitulado The World Guide To Beer (Em breve seremos agraciados com um documentário).

E assim, os Estados Unidos da América inicia o que chamo de “Renascimento Cervejeiro”. Surgiram centenas de microcervejarias disputando espaço com as megas corporações e, a produção caseira (homebrew) foi retomada por milhares. Posteriormente, esse movimento se alastrou para vários países e, mais recentemente, chegou ao Brasil.

LOGO_ACERVABRASIL_2014Se as primeiras microcervejarias artesanais brasileiras iniciaram seus trabalhos na década de 90, foi somente nos anos 2000 que elas se multiplicaram. Os cervejeiros caseiros também não ficaram para trás. Com uma produção extensa, diversa e de alta qualidade, muitos se organizaram através de grupos, sobretudo nas Acervas (Associações de Cervejeiros Artesanais) espalhadas pelo Brasil.

Expliquei como aconteceu o Renascimento Cervejeiro, mas não falei do principal, não falei da cerveja artesanal que anda despertando paixões por onde passa. Sendo simplista ao extremo, a cerveja artesanal se diferencia das cervejas comerciais por suas possibilidades. Com quatro ingredientes básicos (água, malte, fermento e lúpulo), a riqueza de combinações beira à infinitude. Quando abrimos nossas mentes e corações para demais adições à cerveja como frutas, ervas ou especiarias, não restam dúvidas quanto à infinitude de combinações.

Cada copo, uma experiência. Aos poucos vamos deixando o consumo desatento de lado e o substituímos pela degustação da cerveja, uma espécie de Slow Food da cerveja. A cerveja deixa de ser desejada apenas como fonte de álcool e passa a ser apreciada pelos cinco sentidos humanos. O álcool torna-se quase um souvenir, por isto um dos lemas do Renascimento Cervejeiros é “Beba menos, beba melhor”; o consumo responsável do álcool é parte indissociável deste processo.

É um universo tão rico que impressiona a todos que se aventuram por essa trilha. Aos poucos vamos descobrindo que a cerveja pode ser doce, amarga, ácida, azeda ou até mesmo, salgada. Pode começar amarga e terminar doce! A cerveja por ser amarela clarinha e translúcida, ou negra e fosca, pode ser avermelhada e turva. Na boca, pode ser encorpada ou leve, com tanino ou adstringência. Pode quase não ter gás ou pode ser extremamente carbonatada. Pode ter muito colarinho, pouco colarinho, colarinho branco, colarinho bege, colarinho persistente, colarinho efêmero. Podemos consumi-la muito gelada ou quase em temperatura ambiente!

Durante a sua produção, pode ser acondicionada em madeira e também pode ser envelhecida. Os cereais podem ser maltados ou não, podem ter diferentes níveis de torra ou serem até defumados. Como cereais podemos usar a cevada, o trigo, o centeio, a aveia, entre outros. A água também tem sua variedade e isto afeta o resultado final. Podemos usar o lúpulo Saaz ou o Cascade, o Columbus ou o Galaxy, o Pilgrim ou o Centennial, ou diversos outros. É possível misturar os lúpulos, colocá-los na cerveja em momentos e etapas diferentes do processo de produção, gerando resultados diferentes; podemos até mesmo substituir essa flor por outras plantas. E o fermento? Pode-se usar dezenas de leveduras, até mesmo usar bactérias, ou ainda deixar a natureza escolher os fermentos. Podemos adicionar tudo na cerveja: morango, banana, chocolate, tempero, abóbora, mandioca, rapadura, mel e o que mais sua criatividade permitir! Com tudo isso se faz cerveja! Com ou sem adições, as possibilidades gustativas e aromáticas da cerveja são infinitas…

Diferentemente do que me contaram, a cerveja não é um produto industrial! Sim, a cerveja é industrializável e, em sua maioria, industrializada como quase tudo em nossa experiência recente. A produção caseira nunca deixou de existir, se no passado ela era parte dos afazeres domésticos, dos quais as mulheres eram responsáveis (Sim, as mulheres foram as primeiras “mestres cervejeiras”); hoje ela está presente como hobby de milhares de pessoas e estará, com certeza, presente em nosso futuro.

Para ter uma dimensão da variedade relatada acima, seguem algumas imagens meramente ilustrativas:

1) Tonalidades:

colortypes2) Variedades de malte:

malttypes

3)Variedades de fermento:

yeattypes

4)Variedades de sabores:

flavortypes

5) Variedades de lúpulo:

hops_v1.12

6)Variedades de cerveja:

hops_v1.12

Creative Commons License

“As Cervejas Artesanais e o Renascimento Cervejeiro” por Gutemberg Motta é licenciado sob Creative Commons Atribuição 2.5 Brasil License.

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